Naltrexona

O que é e para que serve?

A naltrexona é um medicamento classificado como antagonista opioide — em português simples, ela é uma espécie de “bloqueadora” de certos receptores do cérebro ligados ao prazer e à dependência. Não é um antidepressivo, não é um calmante, e não causa dependência nem euforia. Ela age de um jeito bem diferente da maioria dos remédios psiquiátricos.

No Brasil, ela é usada principalmente para ajudar no tratamento da dependência de álcool e da dependência de opioides (como heroína, morfina ou outros analgésicos opioides). Ela não é uma “cura” sozinha — funciona melhor quando combinada com acompanhamento médico, psicológico e, muitas vezes, grupos de apoio. Pense nela como uma ferramenta que torna o processo de parar ou reduzir o consumo mais manejável.

No Brasil, o nome comercial mais encontrado é Vivitrol® (na versão injetável de longa duração) e Revia® (comprimidos). A versão em comprimido de 50 mg é a mais comum no país. Vale checar com a farmácia ou com seu médico qual está disponível na sua região, já que a versão injetável pode ter disponibilidade limitada no sistema público.


Como ela age no seu cérebro?

Imagine que o álcool, quando você bebe, é como um convidado que chega na sua casa e aperta um botão especial no seu cérebro — o botão do prazer. Esse botão existe porque o cérebro tem receptores (pequenas “fechaduras”) que respondem a substâncias chamadas opioides endógenos (as endorfinas naturais do seu próprio corpo, liberadas em momentos de prazer, como comer algo gostoso ou se exercitar). O álcool estimula a liberação dessas endorfinas, que encaixam nessas fechaduras e geram aquela sensação boa que muita gente associa ao beber.

A naltrexona funciona como uma chave que ocupa a fechadura sem abrir a porta. Ela se encaixa nesses mesmos receptores — principalmente o receptor chamado mu (µ) — mas não ativa o prazer. Ela simplesmente fica lá, bloqueando o espaço. Quando o álcool chega e tenta acionar o sistema de prazer, encontra a fechadura ocupada. O resultado? A sensação de prazer e recompensa associada ao beber fica muito reduzida. Muitas pessoas descrevem que, tomando naltrexona, o álcool “não faz mais o mesmo efeito” — ele perde parte do apelo.

Esse mecanismo também explica por que ela ajuda na dependência de opioides: se alguém usar um opioide enquanto estiver tomando naltrexona, o efeito de euforia será bloqueado ou muito diminuído.


Quando começa a fazer efeito?

Diferente dos antidepressivos, que levam semanas para agir, a naltrexona começa a bloquear os receptores opioides em poucas horas após a primeira dose. O bloqueio farmacológico é rápido.

Mas o efeito que você vai notar no dia a dia — menos vontade de beber, menos prazer no álcool, menos fissura — pode levar algumas semanas para se tornar mais evidente. Isso porque mudar um padrão de comportamento que o cérebro construiu ao longo de meses ou anos não acontece da noite para o dia. Pense assim: a naltrexona remove o “combustível” do desejo, mas o hábito ainda precisa ser trabalhado com apoio psicológico e mudanças de rotina.

Nas primeiras semanas, algumas pessoas sentem náusea ou cansaço. Esses efeitos tendem a diminuir com o tempo. Se você não notar nenhuma diferença no desejo pelo álcool após algumas semanas de uso regular, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a abordagem.


Como tomar corretamente

A dose habitual em comprimido é 50 mg uma vez ao dia, geralmente pela manhã. Pode ser tomada com ou sem alimento, mas se você sentir náusea, tomar junto com uma refeição ajuda bastante.

Alguns médicos adotam um esquema alternativo para facilitar a adesão: 100 mg nas segundas-feiras, 100 mg nas quartas-feiras e 150 mg nas sextas-feiras — totalizando a mesma dose semanal. Siga exatamente o que seu médico orientou.

Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que não esteja próximo do horário da próxima dose. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.

Não pare o remédio por conta própria. Diferente de alguns outros medicamentos, a naltrexona não causa síndrome de abstinência se for interrompida — mas parar sem avisar o médico pode significar perder a proteção que ela oferece num momento vulnerável do tratamento.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Náusea: É o efeito colateral mais relatado, especialmente nas primeiras semanas. Acontece porque os receptores opioides também existem no sistema digestivo, e bloqueá-los pode deixar o estômago um pouco “confuso” no início. Tomar o remédio com comida costuma resolver. Geralmente passa após os primeiros dias.

  • Dor de cabeça: Relativamente comum no início. O cérebro está se adaptando a um novo equilíbrio químico. Tende a melhorar sozinha. Analgésicos comuns (como paracetamol) podem ajudar — mas evite ibuprofeno se tiver histórico de problemas gástricos.

  • Cansaço ou sonolência: Alguns pacientes relatam se sentir um pouco mais lentos ou cansados no começo. Isso costuma passar nas primeiras semanas.

  • Perda de apetite: O sistema opioide também participa da regulação do prazer em comer. Com os receptores bloqueados, algumas pessoas sentem menos vontade de comer, especialmente no início.

  • Dor abdominal: Pode ocorrer por razão semelhante à náusea — os receptores opioides no intestino sendo bloqueados. Geralmente leve e passageiro.

Menos comuns

  • Sensação de apatia ou “embotamento emocional”: Algumas pessoas relatam que, além do prazer no álcool, outras fontes de prazer do dia a dia também parecem um pouco menos intensas. Isso acontece porque os receptores opioides participam do prazer em geral — não só no álcool. Se isso estiver incomodando muito, converse com seu médico. Pode ser necessário ajustar a dose ou reavaliar o tratamento.

  • Dificuldade para dormir ou insônia: Menos frequente, mas possível. Se persistir, avise seu médico.

  • Ansiedade ou irritabilidade: Pode ocorrer, especialmente se a pessoa ainda está no processo de adaptação à sobriedade. É importante distinguir se é efeito do remédio ou parte do processo de parar de beber — seu médico pode ajudar a fazer essa diferença.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Sinais de problema no fígado: Dor forte no lado direito da barriga, olhos ou pele amarelados (icterícia), urina muito escura, cansaço extremo sem explicação. A naltrexona em doses muito altas pode causar dano ao fígado. Na dose habitual de 50 mg, esse risco é baixo, mas existe — especialmente em quem já tem doença hepática. Seu médico provavelmente vai pedir exames de sangue periódicos para monitorar o fígado.

  • Pensamentos de se machucar ou humor muito deprimido: Há relatos raros de depressão e pensamentos suicidas associados ao uso. Se isso acontecer, procure atendimento imediatamente.

  • Reação alérgica: Erupção na pele, dificuldade para respirar, inchaço no rosto ou garganta. Raro, mas exige atendimento de emergência.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Para náusea, cansaço e dor de cabeça leves: não pare o remédio. Esses efeitos costumam passar nas primeiras semanas. Tomar com comida, beber bastante água e descansar bem ajuda muito.

Ligue para seu médico se:
– Os efeitos colaterais não melhorarem após 2 a 3 semanas
– Você sentir dor abdominal intensa ou persistente
– Notar qualquer sinal de problema no fígado (olhos amarelados, urina escura)
– Sentir humor muito deprimido ou pensamentos de se machucar

Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver dificuldade para respirar, inchaço no rosto ou sinais de reação alérgica grave
– Estiver com pensamentos de suicídio ou em crise

O que NÃO fazer: não pare o remédio abruptamente sem falar com seu médico, mesmo que esteja se sentindo bem. E nunca tente “testar” se o remédio ainda está fazendo efeito usando álcool ou opioides em grandes quantidades — isso é perigoso.


Cuidados importantes

Opioides e analgésicos: Esse é o cuidado mais importante. Se você precisar de um analgésico opioide por qualquer motivo — uma cirurgia, uma dor intensa — a naltrexona vai bloquear o efeito dele. Sempre avise qualquer médico, dentista ou profissional de saúde que você está tomando naltrexona. Em emergências cirúrgicas, a equipe médica precisa saber disso para usar doses maiores ou anestesias alternativas. Remédios comuns para tosse e diarreia que contêm codeína também podem ter o efeito reduzido.

Álcool: A naltrexona não é o dissulfiram (Antabuse®) — ela não vai te deixar doente se você beber. Ela apenas reduz o prazer. Isso significa que beber enquanto toma naltrexona não é uma emergência médica, mas também significa que o remédio não é uma barreira física ao consumo. O trabalho ainda depende de você.

Fígado: Se você tem hepatite, cirrose ou qualquer doença hepática, converse com seu médico antes de iniciar. Exames de função hepática periódicos são recomendados durante o tratamento.

Gravidez e amamentação: A naltrexona não é recomendada durante a gravidez. Se você está grávida, planeja engravidar ou está amamentando, converse com seu médico para avaliar os riscos e benefícios e discutir alternativas.

Idosos: Geralmente tolerada bem, mas pode ser necessário monitoramento mais próximo da função hepática e renal.

Atenção ao parar o tratamento: Quando você terminar o tratamento com naltrexona, seu cérebro volta a ter os receptores opioides “livres”. Isso significa que sua tolerância a opioides pode estar menor do que antes. Se usar opioides após parar a naltrexona, doses que você tolerava antes podem agora causar overdose. Esse risco é real e já causou mortes. Informe pessoas próximas sobre isso.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da naltrexona?
Não. A naltrexona não causa dependência física nem psicológica. Ela não dá euforia, não cria tolerância no sentido de precisar de doses cada vez maiores para o mesmo efeito, e pode ser interrompida sem síndrome de abstinência. É um dos poucos remédios psiquiátricos sobre os quais você pode ter essa tranquilidade.

Posso beber álcool enquanto tomo naltrexona?
Tecnicamente, não há uma reação perigosa entre a naltrexona e o álcool como acontece com o dissulfiram. Mas o objetivo do tratamento é justamente reduzir ou eliminar o consumo. Beber “por cima” do remédio é possível, mas significa que você está trabalhando contra o tratamento. Converse honestamente com seu médico sobre isso — sem julgamento.

Por quanto tempo vou precisar tomar?
Isso varia de pessoa para pessoa e depende dos seus objetivos e da sua resposta ao tratamento. Estudos acompanharam pacientes por até um ano com bons resultados. Seu médico vai avaliar periodicamente se faz sentido continuar, reduzir ou encerrar o uso.

E se eu precisar de uma cirurgia ou tomar um remédio para dor?
Avise a equipe médica imediatamente que você usa naltrexona. Eles precisam saber para escolher analgésicos alternativos ou ajustar as doses. Nunca esconda essa informação por vergonha — é uma questão de segurança.

O remédio vai me deixar sem sentir prazer em nada?
Algumas pessoas relatam uma leve redução no prazer geral, especialmente no início. Isso acontece porque os receptores opioides participam do prazer em várias situações, não só no álcool. Na maioria dos casos, esse efeito é leve e passageiro. Se estiver muito intenso ou persistente, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a dose.


Referências

  • Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. Artmed, 2021.
  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014.
  • FDA. Naltrexone Hydrochloride Tablets USP 50 mg — Prescribing Information. Disponível em: fda.gov
  • ANVISA. Bula de Revia® (naltrexona). Disponível em: bulario.anvisa.gov.br

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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