Mirtazapina

O que é e para que serve?

A mirtazapina é um antidepressivo. Ela pertence a uma categoria chamada de antidepressivos atípicos — o que significa que funciona de um jeito um pouco diferente dos antidepressivos mais conhecidos, como a fluoxetina. Foi criada nos anos 1980 e hoje é usada no mundo todo, inclusive no Brasil, onde você pode encontrá-la nas farmácias com os nomes comerciais Remeron® e Mirtazapina Genérico (em versões de diferentes laboratórios).

O uso principal dela é no tratamento da depressão maior — especialmente quando a pessoa também tem dificuldade para dormir, perda de apetite ou muita ansiedade junto com a tristeza. Ela é uma boa escolha nesses casos porque, diferente de outros antidepressivos, tende a melhorar o sono e o apetite logo nas primeiras semanas.

Além da depressão, médicos também a prescrevem — fora da indicação oficial, mas com base em evidências — para ansiedade generalizada, estresse pós-traumático, náuseas em pacientes com câncer e situações em que a pessoa perdeu muito peso ou está comendo muito pouco. Se o seu médico te prescreveu para um desses motivos, isso é relativamente comum na prática clínica.


Como ele age no seu cérebro?

Pense no seu cérebro como uma cidade enorme, onde os neurônios (as células do cérebro) são vizinhos que se comunicam o tempo todo jogando mensagens uns para os outros. Essas mensagens são substâncias chamadas neurotransmissores — as principais aqui são a serotonina (ligada ao humor e ao bem-estar) e a noradrenalina (ligada à energia e ao estado de alerta).

Na depressão, é como se o sistema de entrega dessas mensagens estivesse com problemas — as mensagens chegam em quantidade menor do que o necessário.

A mirtazapina age de um jeito inteligente: ela não age diretamente nas mensagens, mas sim no sistema de controle que regula o quanto dessas mensagens é liberado. Existe um mecanismo no cérebro que funciona como um freio automático — quando há serotonina e noradrenalina demais, ele manda o sistema desacelerar. A mirtazapina bloqueia esse freio, deixando o cérebro liberar mais dessas substâncias naturalmente.

Além disso, ela bloqueia alguns receptores específicos de serotonina (os chamados 5-HT2 e 5-HT3 — pense neles como “portinhas” que, quando abertas, causam ansiedade, insônia e náusea). Ao fechar essas portinhas, a mirtazapina consegue trazer os benefícios da serotonina sem os efeitos chatos que outros antidepressivos às vezes causam, como insônia, agitação ou problemas sexuais.

Por fim, ela também bloqueia receptores de histamina no cérebro — a mesma substância que causa sonolência quando você toma um antialérgico. É por isso que ela deixa a pessoa com sono, especialmente no começo do tratamento. Esse efeito é usado a favor de quem tem dificuldade para dormir.


Quando começa a fazer efeito?

É como plantar uma semente: você rega, cuida, mas a planta não aparece no dia seguinte. O efeito antidepressivo completo da mirtazapina leva, em média, de 2 a 4 semanas para aparecer — e em alguns casos pode demorar até 6 a 8 semanas para o benefício total ser sentido.

O motivo é que o cérebro precisa de tempo para se adaptar às mudanças que o remédio provoca. Não é como um analgésico, que age em horas. A mirtazapina está ajudando o cérebro a reorganizar circuitos que estavam funcionando mal — e isso leva tempo.

O que costuma melhorar primeiro, ainda nas primeiras semanas, é o sono e o apetite. A melhora do humor, da motivação e da tristeza vem depois. Então se você está tomando há uma semana e ainda não se sente diferente em relação ao humor, isso é completamente normal — o remédio ainda está começando a trabalhar.


Como tomar corretamente

A mirtazapina é tomada uma vez ao dia, à noite, antes de dormir. Isso não é à toa: como ela causa sonolência, faz muito mais sentido tomar quando você já vai se deitar. Tomar de manhã ou à tarde pode deixar você arrastado o dia todo.

Ela pode ser tomada com ou sem comida — a alimentação não interfere na absorção do remédio. Existe também uma versão que dissolve na boca (comprimido orodispersível), útil para quem tem dificuldade de engolir comprimidos.

As doses mais usadas são 15 mg, 30 mg ou 45 mg por dia. Muitos médicos começam com 15 mg e aumentam conforme a necessidade. Um detalhe curioso: a dose de 15 mg tende a causar mais sono do que a de 30 mg ou 45 mg — parece contraditório, mas é porque em doses maiores outros efeitos do remédio “compensam” a sedação.

Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que ainda seja à noite. Se já for de manhã, pule essa dose e retome normalmente na noite seguinte. Nunca tome duas doses juntas para compensar.

Não pare de tomar por conta própria. Interromper o remédio de repente pode causar sintomas desagradáveis de descontinuação (tontura, irritabilidade, mal-estar geral) e pode fazer a depressão voltar. Quando chegar a hora de parar, o médico vai orientar como reduzir a dose aos poucos.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sonolência e cansaço: É o efeito colateral mais frequente — acontece em mais da metade das pessoas. O motivo é o bloqueio dos receptores de histamina no cérebro (o mesmo mecanismo dos antialérgicos que dão sono). Costuma ser mais intenso nas primeiras semanas e tende a diminuir com o tempo. Tomar o remédio à noite ajuda muito a lidar com isso.

  • Aumento do apetite e ganho de peso: A mirtazapina bloqueia receptores no cérebro que normalmente “avisam” que você está satisfeito, além de estimular o apetite de outras formas. Isso pode ser ótimo para quem perdeu muito peso com a depressão, mas pode ser indesejado para outros. Se o ganho de peso não aparecer até a sexta semana de tratamento, as chances de acontecer depois são menores. Manter uma alimentação equilibrada e se movimentar ajuda a controlar esse efeito.

  • Boca seca: Acontece porque a mirtazapina tem uma leve ação sobre receptores que controlam a produção de saliva. Beber água com frequência, chupar balas sem açúcar ou usar spray bucal hidratante ajuda bastante.

  • Constipação (intestino preso): Pelo mesmo mecanismo da boca seca, o remédio pode deixar o intestino mais lento. Aumentar a ingestão de água, fibras e se movimentar costuma resolver.

  • Elevação do colesterol: Pode acontecer em algumas pessoas. Não costuma ser grave, mas é um motivo para manter os exames de rotina em dia enquanto usa o remédio.

Menos comuns

  • Tontura ao levantar rápido: A mirtazapina pode baixar um pouco a pressão arterial quando você muda de posição (de deitado para em pé, por exemplo). Levante devagar, especialmente de manhã, para evitar aquela sensação de “escurecimento” na vista.

  • Síndrome das pernas inquietas: Algumas pessoas relatam uma sensação desconfortável nas pernas à noite, com vontade incontrolável de movê-las. Se isso acontecer, avise o médico — pode ser necessário ajustar o tratamento.

  • Sonhos vívidos ou pesadelos: Relacionado ao efeito do remédio sobre o sono. Costuma ser passageiro, mas se incomodar muito, vale conversar com o médico.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Agranulocitose (queda grave de glóbulos brancos): É raro, mas sério. Os sinais de alerta são febre alta de repente, dor de garganta intensa e feridas na boca sem causa aparente. Se isso acontecer, vá a uma emergência e informe que está tomando mirtazapina.

  • Síndrome serotoninérgica: Pode acontecer se a mirtazapina for combinada com outros remédios que também aumentam a serotonina. Os sintomas são agitação intensa, tremores, confusão mental, batimento cardíaco acelerado e febre. É uma emergência médica — vá a uma UPA ou pronto-socorro imediatamente.

  • Reações alérgicas graves na pele: Manchas vermelhas que se espalham rapidamente, bolhas ou descamação da pele são sinais de alerta sérios. Procure atendimento de emergência.

  • Pensamentos de se machucar: Antidepressivos, especialmente no início do tratamento, podem em alguns casos aumentar pensamentos de suicídio — principalmente em jovens. Se isso acontecer, não fique sozinho e procure ajuda imediatamente (CVV: 188, disponível 24h).


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

A maioria dos efeitos colaterais da mirtazapina é leve e melhora nas primeiras semanas, conforme o corpo vai se acostumando ao remédio. Mas isso não significa que você precisa sofrer calado.

Ligue ou mande mensagem para o seu médico se:
– O sono excessivo estiver atrapalhando sua vida (trabalho, dirigir, cuidar de alguém)
– O ganho de peso estiver te preocupando
– Você estiver sentindo as pernas inquietas à noite
– Qualquer efeito colateral estiver te incomodando muito

Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver febre alta com dor de garganta intensa e feridas na boca
– Sentir agitação extrema, tremores e confusão mental
– Tiver reação grave na pele (bolhas, descamação)
– Tiver pensamentos de se machucar

O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente por conta própria, mesmo que esteja se sentindo mal. Parar abruptamente pode piorar os sintomas. Se quiser parar, converse com o médico para fazer isso de forma gradual e segura.


Cuidados importantes

Álcool: Evite. A mirtazapina já causa sonolência, e o álcool potencializa esse efeito — a combinação pode deixar você muito sedado, com reflexos prejudicados e risco de acidentes. Além disso, o álcool piora a depressão em si.

Outros remédios — atenção especial:
IMAO (como fenelzina, tranilcipromina, selegilina): combinação proibida. Pode causar uma crise grave chamada síndrome serotoninérgica. Há um intervalo mínimo de 14 dias entre parar um IMAO e começar a mirtazapina (e vice-versa).
Carbamazepina (usada para epilepsia ou transtorno bipolar): pode reduzir o nível da mirtazapina no sangue, diminuindo o efeito do antidepressivo.
Fluvoxamina (outro antidepressivo): pode aumentar o nível da mirtazapina no sangue, intensificando os efeitos e os riscos.
Outros antidepressivos, tramadol, lítio, erva de São João: aumentam o risco de síndrome serotoninérgica. Sempre informe ao médico todos os remédios que você usa, incluindo fitoterápicos.

Gravidez: A decisão de usar ou não mirtazapina durante a gravidez precisa ser feita junto com o médico, pesando os riscos de tratar a depressão versus os riscos de não tratar. Não interrompa por conta própria se descobrir que está grávida — converse com o seu médico antes.

Amamentação: Quantidades pequenas do remédio passam para o leite materno, mas estudos mostram que os níveis são baixos e não causaram problemas nos bebês acompanhados. Se você está amamentando, converse com o médico — na maioria dos casos, o benefício de tratar a depressão supera o risco, e a amamentação não precisa ser interrompida.

Idosos: O organismo de pessoas mais velhas elimina a mirtazapina mais lentamente, então os efeitos podem ser mais intensos. Doses menores costumam ser usadas no início. A tontura ao levantar merece atenção especial nessa faixa etária, pelo risco de quedas.

Problemas no rim ou no fígado: O remédio é processado pelo fígado e eliminado pelos rins. Se você tiver alguma doença nesses órgãos, informe o médico — pode ser necessário ajustar a dose.

Dirigir e operar máquinas: Especialmente nas primeiras semanas, a sonolência pode ser significativa. Seja cauteloso ao dirigir ou realizar atividades que exijam atenção plena até saber como o remédio te afeta.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da mirtazapina?
Não no sentido de vício — a mirtazapina não causa dependência química como acontece com benzodiazepínicos (como o diazepam) ou substâncias ilícitas. Você não vai precisar de doses cada vez maiores para sentir o efeito, nem vai ter fissura. Porém, parar de repente pode causar sintomas de descontinuação (tontura, mal-estar, irritabilidade), por isso a retirada deve ser feita gradualmente, com orientação médica.

Posso beber álcool enquanto tomo mirtazapina?
O ideal é evitar. A combinação aumenta muito a sedação e pode prejudicar seus reflexos e sua coordenação. Uma taça ocasional pode não causar problema grave para todo mundo, mas o risco não vale a pena — e o álcool, por si só, piora a depressão.

Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. A maioria dos médicos recomenda manter o tratamento por pelo menos 6 a 12 meses após a melhora, para reduzir o risco de recaída. A decisão de parar deve ser tomada junto com o médico, e a retirada feita aos poucos.

A mirtazapina vai me deixar “anestesiado” ou mudar minha personalidade?
Não. O objetivo do remédio é te trazer de volta ao seu estado natural — não te deixar diferente de quem você é. Algumas pessoas relatam sentir menos emoções intensas no início, mas isso costuma se equilibrar. Se você sentir que está se sentindo “apagado” ou diferente de si mesmo, converse com o médico.

Por que minha dose é diferente da de outra pessoa que também toma mirtazapina?
Cada pessoa responde de um jeito diferente ao remédio. A dose certa para você depende de vários fatores: a intensidade dos seus sintomas, como seu organismo metaboliza o remédio, outros remédios que você usa e como você está respondendo ao tratamento. Não compare sua dose com a de outras pessoas.


Referências

  • Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. Artmed, 2021.
  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2010.
  • FDA. Mirtazapine — Prescribing Information (Label). Disponível em: dailymed.nlm.nih.gov
  • ANVISA. Bula de Remeron® (mirtazapina). Disponível em: bulario.anvisa.gov.br

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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